Elas são espontaneamente belas

Nenhuma mulher, naturalmente, estará no padrão. E tudo bem não estar.

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Raramente sabemos como abordar assuntos que nos afetam diretamente, e tratando-se do padrão de beleza imposto pela sociedade, o meio feminino é o mais afetado. É comum interligarem o conceito de beleza a mulheres altas, magras, de pele clara, rosto afinado e cabelos naturalmente lisos. Mas, afinal, por que engessar algo tão original e mutável como a beleza?

O modelo de beleza faz com que a mulher tenha tendência a se adaptar ao que a mídia impõe, porém, o que muitos desconhecem é o percurso que estas fazem para tentar chegar até este ideal. Não se trata apenas de algo estético, mas principalmente psicológico. “Padrão de beleza gera uma cobrança que não é só interna, é da sociedade. E como mulher, somos o tempo todo pressionadas a ter um cabelo e corpo específico, se comportar de um determinado jeito. Você viver na tentativa de se adequar é muito frustrante, porque você nunca vai se adequar, essa é a verdade. Isso é um processo”, destaca Juliana Costa, 33, responsável pela editoria de beleza da revista digital Capricho.

Desencadeadores de muitos conflitos sociais, os protótipos de beleza afetam a rotina feminina de maneira intensa, limitando a vida de inúmeras garotas e mulheres que, de algum modo, não se sentem socialmente encaixadas no que é ser belo. Aliás, o que é beleza?

A resposta pra essa pergunta não existe, assim como também não existe perfeição e imperfeição. Mas o que existe e necessita de maior atenção são os diversos problemas causados pela pressão de ser e estar sempre inserida num patamar de beleza inalcançável. São diversos os problemas de saúde que o sentimento de inferioridade e insegurança podem causar, como depressão, anorexia e bulimia. “Vemos tantas meninas com anorexia, bulimia, isso nada mais é que consequência de uma pressão para que você seja de um determinado jeito”, diz Juliana Costa.

Um estudo realizado recentemente pela Secretária da Saúde de SP apontou que a cada dois meses uma pessoa é internada em decorrência da anorexia e bulimia nos hospitais públicos de São Paulo. O assunto é sério. A cobrança estética social, por mais vedada que seja, tem imensa influência na vida de mulheres, principalmente adolescentes. “Já atendi muitas mulheres, principalmente jovens, algumas que até precisaram ser internadas por causa da anorexia. As garotas se espelham muito nas blogueiras, em como elas são e se comportam, e acabam se perdendo. A beleza que a sociedade e figuras públicas impõem pode resultar em problemas muito sérios”, afirma a psiquiatra Juliana Leite, 31.

Tudo o que passa a comprometer sua saúde física e principalmente mental deve ser repensado. Afinal, suas ações são por e para você ou por e para o outro? A sociedade é a principal colaboradora para a criação de garotas doentes. “O quanto você vê de noticias, problemas que as meninas passam por conta da estética. Tem menina que entra em depressão, se mutila, para de comer, para de sentir prazer na vida porque se sente julgada pela pressão estética. É uma coisa que a sociedade impôs. Não é uma obrigação nossa ser bonita”, comenta a atriz Giovanna Grigio, 20.

Atualmente, cerca de 77% da população feminina garantem que o principal para se sentir bonita é estar feliz, porém, 44% não se sentem satisfeitas com o visual. “Recebo com frequência comentários e mensagens de leitoras que dizem não se aceitar, não se sentem confortáveis em seus corpos. Tento pedir para que se enxerguem com um olhar mais carinhoso e menos crítico, que amem seus corpos, pois ele conta a história de vida de cada pessoa”, relata a jornalista e digital influencer Mariana Rodrigues, 30.

A aceitação estética, física e psicológica é construída com o tempo, de acordo com as experiências e necessidades de cada uma. É natural do corpo passar por mudanças no decorrer de seu desenvolvimento. O crescimento e a puberdade trazem consigo espinhas, pelos e, principalmente, estrias e celulites, todas consequências do desenvolvimento humano. Porém, muitas mulheres enxergam essas marcas como imperfeições, e é neste momento que optam por intervenções médicas, como complementa a esteticista Emiliana Benotti, 30. “Já cheguei a atender uma moça que estava muito bonita segundo os padrões que os meios de comunicação impõem, mas eu nunca atendi uma mulher que estivesse satisfeita com o corpo. Nem as fisiculturistas estão”, garante.

giovanna grigioAcompanhada por 5,1 milhões de pessoas, a atriz Giovanna Grigio tem suas redes sociais bastante agitadas. No início de 2018 a jovem publicou uma foto onde aparecia de biquíni na praia, imagem que gerou grande repercussão positiva e negativa pela aparição de suas estrias. Pois bem, estrias e celulites são consequências da padronização social. “Na questão da pressão estética não tem diferença, porque tanto as pessoas públicas quanto as anônimas sofrem a pressão que vem de todos os lados: televisão, revistas, Instagram... Nenhuma de nós está protegida. A gente começa a se proteger quando nos informamos, pesquisamos e encontramos referências”, explica Giovanna, que, apesar de ter sido muito vangloriada por jovens após sua postagem, garante não se sentir com muita propriedade para ser inspiração pelo fato de possuir características que a enquadrem no padrão de beleza.

A falta de informação contribui para a não aceitação que diversas jovens possuem em relação às estrias e celulites, privando-se, inclusive, de vestir uma roupa curta ou biquíni por causa da vergonha. “Por muitos anos as estrias me incomodaram. Elas realmente interferiam muito na minha autoestima. Notei aos 13 anos e logo quis saber como combater seu desenvolvimento”, lembra a estudante de moda Nairobi Ayobami, 20, que tem seu comentário complementado pela visão da maquiadora Denise Odara, 19. “Minhas estrias começaram a aparecer por volta dos meus 12 anos, na fase de crescimento. Não as odeio, mas também não as amo”. Nem sempre o início da aparição é um marco na vida das mulheres, como é o caso de Giovanna Grigio. “Não lembro um momento. Eu nunca tive problema com estrias, realmente nunca me incomodou, tanto que eu nem lembro de ter reparado nelas”, conta.

As duas visões são compreensíveis, afinal, toda mudança gera consequências. “Minhas marcas corporais - todas elas - contam um pouco sobre a minha história. Cada celulite, dobrinha, cicatriz e outras marcas do meu corpo, contam uma historia diferente, vejo meu corpo como um livro que foi sendo escrito ao longo desses anos todos. Com certeza alguns anos atrás eu odiava todas essas celulites e marcas que são consideradas imperfeições pelos outros. Mas me vi mais feliz no momento em que passei a amá-las e entendi meu corpo”, diz Mariana.

Mas por que não tratarmos da evolução feminina como algo normal? “A grande questão é tornar natural coisas que são naturais. Isso vale pra estrias, celulites, menstruação. O corpo feminino ainda tem muitos tabus”, argumenta a editora de beleza, Juliana Costa.

O padrão de beleza não se refere unicamente à cobrança do peso e estética, mas também a aparência dada por meio de vestimentas, acessórios e postura. “As mulheres são imensamente cobradas o tempo inteiro na sociedade. Tem que ser boas profissionais, esposas, mães, donas de casa, bem-sucedidas e, claro, lindas. E se você for tudo isso, exceto linda (para os padrões de beleza sociais), nada mais importa, você é fracassada. Fora a mutação que o conceito de beleza sofre com o tempo. Falta um olhar social de como a beleza pode (e deve) ser plural”, opina a influencer Mariana Rodrigues, seguida por Giovanna, que declara “Eu gosto da cultura da gente ficar feliz com nós mesmos, olhar no espelho e gostar do que vê. A gente perde muito tempo pra agradar e incomodar os outros”.

Meu corpo, minhas regras!

É comum nos dias atuais cruzarmos constantemente com pessoas tatuadas, mas o que muitos não fazem ideia é do quão discriminada elas são. “Onde eu passo, sempre ouço comentários como ‘Nossa, credo!’, e eu acabo ficando assustada pela forma como as pessoas reagem àquilo, porque se eu fosse ligar nem sairia de casa” , desabafa a estudante Lavínia Nakawaga, 20, que tem mais de 20 tatuagens no corpo, incluindo no rosto. 

Até que ponto os comentários externos podem afetar e influenciar vida, rotina e autoestima de alguém? Lavínia é um caso raro comparado à quantidade de jovens que, ao ouvir uma crítica sobre seu corpo, cor, cabelo ou roupas, se priva de algo, adoece e sofre. A questão é: por que se privar e diminuir para caber no espaço de outro alguém? O problema não é mudar algo na sua aparência, mas sim o que leva a ela. “Eu acho que o que marca a diferença é: Estou fazendo isso por mim ou estou fazendo pelos outros?”, reflete Giovanna. porque se eu fosse ligar nem sairia de casa”, desabafa a estudante Lavínia Nakawaga, 20, que tem mais de 20 tatuagens no corpo, incluindo no rosto.

Qualquer mudança no corpo deve ser dada para o próprio bem-estar, e nunca para se encaixar em algum grupo ou agradar alguém. Nenhuma mulher, naturalmente, estará no padrão. E tudo bem não estar.

IMG 53673Muitas mulheres gordas sofrem com críticas relacionadas ao corpo, mas por que não ter o direito de ser como quer e sentir-se bem assim? Muitas vezes a dificuldade em se aceitar  parte do problema na hora de se vestir, como é o caso de Mariana Rodrigues. “Lembro que a minha relação com o meu corpo mudou quando descobri a moda plus size. Eu na verdade não gostava do meu corpo por um motivo externo”.

Anos se passaram e a moda plus size ganhou espaço no mercado, levando moças como Mariana a sentirem-se acolhidas. “Tento não focar em aceitação, e sim em amor próprio. Aceitar algo é praticamente enfiar goela abaixo uma frustração, algo que não se pode mudar, e eu busco falar de se amar, amar cada parte do seu corpo. Se cuidar da maneira que achar melhor, lendo um livro, passando uns cremes no rosto, dirigindo... se cuidar é relativo, mas é importante”, acredita.

“Se arrumar pra amiga, inimiga... não gosto dessa cultura da lacração ou recalque. Temos que ser irmãs, e não ficar se comparando, inferiorizando e criticando” , encerra Giovanna. A militância não é sobre humilhar uma mulher para enaltecer outra, mas sim sobre empatia: colocar-se no lugar da outra independentemente da ocasião.

 

 

 

Por: Drielly Peniche

 

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